16 de julho de 2026
Como fazer a IA programar certo — Projeto "AI Ready"
Anotações e checklist sobre como deixar seu projeto AI Ready: por que a IA erra sem contexto, os guias (AGENTS.md e skills) que a direcionam e os sensores (testes, linter, type check) que fecham o ciclo de feedback.
Ideia central
O erro mais comum é abrir o projeto no Claude Code (ou similar) e já sair mandando prompt. Programar com IA não começa no prompt — começa antes, deixando o projeto "AI Ready".
Por que ir direto ao prompt é um erro
- A LLM é stateless: não tem memória entre conversas. Toda nova janela começa do zero — não sabe o comando que roda o projeto, a estrutura de pastas, nem quais libs de front/back você usa.
- Sem contexto, ela adivinha → gasta muito mais token.
- Não é questão de modelo forte ou fraco: no teste feito nas turmas (com Opus e GPT, os mais caros), ambos criam um arquivo gigante de 400–500 linhas, tudo junto. O modelo é inteligente; o problema é falta de direcionamento.
Os 2 lados de um projeto AI Ready
- Guias (guides) → direcionam a IA para o caminho certo.
- Sensores (sensors) → monitoram e evitam que a IA fuja do padrão do projeto (ciclo de feedback).
Guias (evolução progressiva)
A IA sabe React, banco de dados etc. do treinamento, mas não sabe COMO você usa isso no seu projeto. Isso precisa estar escrito em algum lugar.
Rules (regras globais)
- Arquivos:
AGENTS.md,CLAUDE.md— ou o padrão já defasado.cursor/rules. No fim, a mesma coisa. - São long-term memory: injetadas via system prompt em toda conversa.
- Problema do modelo antigo (jogar tudo no
.cursor/rules): incha o system prompt. Quanto mais regra, mais pesado o contexto já de largada — mesmo em tarefas que não têm nada a ver com aquela regra. - Boa prática hoje: deixe no
AGENTS.md/CLAUDE.mdsó o que é global e realmente importante:- estrutura de pastas
- comando que roda os testes
- porta da aplicação
- alguns comandos de git
- enforcements do time (regras obrigatórias)
- Enxuto: ideal entre 250 e 300 linhas. Instrução de uma linha resolve — não precisa de exemplo, floreio ou repetição. Esse arquivo tem peso forte no modelo; frontier models (Opus, GPT 5.5) seguem bem.
- Exemplo prático: a IA às vezes fazia
git stash/git reset/git checkoutno meio do trabalho e causava problemas. Solução: uma regra proibindo esses comandos noAGENTS.md→ nunca mais aconteceu.
Skills (a evolução das rules)
Para as regras não-globais (padrão de React, forma de escrever no banco, jeito de escrever teste).
- Padrão surgiu em novembro e já dominou o mercado.
- Carregadas sob demanda — diferente das rules (carregadas inteiras).
- Estrutura: um cabeçalho (frontmatter) com
name,descriptione talvez outras propriedades → só o cabeçalho entra no system prompt. O corpo só é carregado quando o modelo decide, via tool call. → economiza muito contexto. - Servem também para processos do time: skill de "abrir Pull Request" (com checklist e formato de description), skill de "code review", orquestração, peer review entre agentes etc.
- Skill é uma pasta, não um arquivo (o "pulo do gato"): fica self-contained — dá para zipar e mandar para outra pessoa. Muito intercambiável/fácil de compartilhar. Pode conter vários tipos de arquivo, referências e até scripts.
- ⚠️ Alerta de segurança: cuidado com marketplaces de skills. Como skills podem conter scripts, baixar de qualquer lugar é risco de segurança.
- Ele mantém um repositório próprio de skills (link na descrição do vídeo) com skills feitas e curadas por ele.
Sensores
Se o guia diz o que fazer, o sensor deixa a IA saber se fez certo — um ciclo de feedback.
- Sem sensor: a IA escreve o arquivo e não descobre que errou. Quem descobre é você, depois, ao rodar o projeto e ver o erro → copiar stack trace, corrigir, prompt atrás de prompt, gastando mais token.
- Com sensor: ela mesma se corrige antes de você ver.
Tipos de sensores:
- Testes — o mais importante. Force a IA a rodar; ela vê que falhou e se corrige sozinha.
- Linter — ótimo para garantir regras do projeto.
- Formatters
- Type checking
- Playwright — abre o browser → sensor ponta a ponta (e2e).
- Banco de dados — pedir para testar se o banco local está aceitando/gravando corretamente.
- Logs de debug da aplicação.
Resumo prático
- Regra global →
AGENTS.mdenxuto. - Resto das regras e processos → skills sob demanda.
- Sensores fecham o ciclo permitindo autocorreção.
Verdade que incomoda alguns
- Deixar o projeto AI Ready leva tempo — não é em 30 segundos, e não é para pedir para a própria IA fazer. Pode levar um dia, uma semana, ou exigir decisão com o time.
- Mas é esse tempo que para de queimar token em prompts repetidos.
- Ele mantém projetos base (usa muito TypeScript e Go — Compose e AD8 são em Go) já com estrutura,
AGENTS.md, skills e config de lint, e vai copiando conforme precisa. - Regras precisam ser vivas: não é "fazer uma vez e esquecer". Mantenha e atualize conforme o projeto muda ou conforme você observa a IA errando em algum ponto. Isso é o mais importante para colher bons resultados no AI-driven development.
Conclusão: O programador do futuro é um arquiteto de contexto
No desenvolvimento de software moderno, a produtividade não é mais medida por quão rápido você consegue digitar código, mas por quão bem você consegue instruir a máquina a escrevê-lo por você.
Mapear regras no AGENTS.md, modularizar processos em skills e blindar o fluxo de trabalho com sensores não é preciosismo — é a base do AI-driven development. Tratar a IA como um estagiário genial que acabou de chegar, dando a ela o manual da empresa (guias) e um supervisor automático (sensores), é o que separa quem desperdiça milhares de tokens em loops infinitos de erro daqueles que entregam código de produção em minutos.
Preparar o seu projeto para ser AI Ready exige esforço inicial e manutenção contínua, mas o retorno sobre esse investimento é imediato. Ao parar de programar via prompts improvisados e começar a programar via arquitetura de contexto, você finalmente destrava o real potencial da inteligência artificial.
Não lute contra as limitações da IA; construa o ecossistema para que ela jogue no seu time, sob as suas regras.
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